como sempre, eu tinha chegado à estação do Campo Grande precisamente um pequeno instante antes do metro fechar as portas.
enquanto eu me sentei à espera, chegou um homem a falar muito alto. quase a gritar. no princípio não percebi o que dizia, mas depois aproximou-se. falava como se estivesse zangado.
- Quem é que dá um bocado de terra ao pobre?! Sim, pah, voçês que têm terras... quem é que me dá um bocado de terra?! Quero um bocado de terra e quero trabalhar. Quero trabalhar e quero produzir e comer. Quero produzir para mim e comer! Quém é que dá um bocado de terra ao pobre!? Eu sei que voçês têm! Andam aí esses capitalistas disfarçados... grandes capitalistas! E outros assim, assim!
E eu, eu ando aqui há 45 anos.
e gritou outra vez
- 45 anos, caralho! Puseram-me na rua, esses porcos capitalistas!
depois calou-se.
tive pena do homem, mas estava a ter direito a um espectáculo para o qual não tinha pago e estava até a achar alguma graça, ao contrário de grande parte das pessoas que chegavam para apanhar o metro e seguir a sua vida. O casal que estava ao meu lado, com ar dos seus sessenta anos ou perto, comentavam a cena: "que vá trabalhar! que tem ainda muito boa idade e muito bom corpo".
o homem lá continuou, desta vez mais alto e separando as palavras:
- Quem-é-que-dá-um-bocado-de-terra-ao-po-bre?! Quem-é-que-dá-um-bocado-de-terra-ao-po-bre?!
depois houve alguém que, anónimamente, de parte incerta, gritou:
- Vai trabalhar!
o homem olhou para os lados, procurando por alguém, desorientado. e depois disse irritado:
-Quem é que me manda trabalhar?! Eu quero trabalhar! Quero semear e produzir e comer! Não quero trabalhar para voçês! Eu quero trabalhar é para mim, e comer. Quem é que me dá um bocado de terra para eu trabalhar? hã? Quem é? É voçê que me manda trabalhar? Olha-me para este cabrão! Está com medo de ficar sem um bocado de terra. Estás com medo, é?! Hás de comer a terra toda! Come-a toda, pah! Comam a vossa terra toda, a ver se voa enche a barriga!! A ver se vos dá comer! A mim ninguém me dá um bocado de terra e comida não peço a ninguém. Só peço terra para trabalhar! Puta que os pariu a todos!
e depois recomeçou a pedir a quem lhe desse "um bocado de terra", repetindo sempre tudo muitas vezes, não fosse alguém não perceber.
eu pensei que bem lhe podia dar um bocado de terra, não fosse a chatisse que isso daria. mas também pensei porque raio é que haveria de ser eu. o mundo está todo fodido, é verdade. mas já estava quando eu cá cheguei.
You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
(..)
You say you got a real solution
Well, you know
We'd all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well, you know
We're doing what we can
(...)
Don't you know it's gonna be all right
Don't you know it's gonna be all right